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Índia continua sendo o país com maior número de casamentos de meninas menores de 18 anos, mesmo tendo uma legislação que proíbe esse tipo de matrimônio.

Mas casos como o de Monika demonstram que a situação pode estar mudando: ainda que de forma lenta, as vozes dessas garotas começam a ser ouvidas.

A repórter da BBC Naomi Grimley viajou a Bikaner, no noroeste da Índia, para contar sua história.

Há muitas coisas para fazer na manhã que antecede os casamentos. Em 4 de novembro do ano passado, Monika esperava pela maquiagem. Como manda a tradição, ela deveria colocar o “sari”, tradicional vestido indiano.

As joias escolhidas para a ocasião iriam adornar suas orelhas e seu nariz, mas também cobriram seu pescoço. Suas mãos também seriam pintadas com complexos redemoinhos de henna.

Ainda havia muito por fazer, mas poucas horas antes da cerimônia ninguém sabia que a noiva estava se escondendo entre as sombras da casa de sua família. Ela iria fazer uma última ligação telefônica antes de subir ao altar.

Ela não estava ligando para um amigo nem estava tentando checar os últimos preparativos para seu casamento. Nervosa, Monika digitou quatro dígitos: 1098.

Ela era muito jovem para se casar, segundo as leis da Índia. Monika queria impedir seu próprio casamento.

Um marido para Monika

Os registros escolares de Monika indicam que ela tinha 13 anos quando soube que deveria se casar, em setembro de 2017 – seus pais alegam que já tinha completado 17. Nessa região da Índia, a idade das pessoas nem sempre é clara. Em famílias muito pobres, como a de Monika, certidões de nascimento são muito raras.

Em uma manhã de setembro do ano passado, seu pai, Ganesh, levantou-se cedo para levar a cabo uma missão. Quando voltou para casa – em um bairro pobre de Bikaner, noroeste do país -, chamou a garota e sua mãe, Sita, para dar a notícia do casamento.

“Mamãe e papai me disseram que tinham encontrado um homem para mim em Churu (a cerca de 200 km). Disseram que ele era muito amável, educado e que era um operário”, lembra Monika.

Quando descreve seu futuro marido, a jovem não demonstra nenhuma emoção: diz que não o conhecia e que seus pais lhe mostraram uma fotografia do rapaz. Ele tinha 22 anos.

Como era obediente, o primeiro instinto da garota foi fazer o que seus pais pediam, mas depois começou a ter dúvidas sobre o matrimônio. “Sentia que eu era muito jovem, que não deveria me casar. Eu queria estudar e ser uma professora”, diz.

Ela conta que confrontou seus pais. “Disse a eles que não queria me casar. Eles perguntaram o motivo e eu respondi que uma garota deveria ter mais de 18 anos para se casar”.

Para ela, o matrimônio significaria uma vida de isolamento na casa de seu futuro marido, a quatro horas de trem da casa dos pais.

“Eu não poderia brincar ou falar, e teria de cuidar de todas as tarefas domésticas. Minha família me obrigaria a trabalhar, somente trabalhar”, diz.

Mas por que os pais de Monika pensaram que era correto casar sua filha, mesmo ela sendo tão jovem?

Um casamento duplo

Na casa da família, é possível observar Ganesh e Sita cuidando de suas cinco filhas. A vida deles não é fácil.

Ganesh ganha 500 rupias por dia (cerca de R$ 24) trabalhando na construção civil, mas os serviços são esporádicos. A mãe e a avó de Monika limpam lixeiras de algumas casas do bairro.

Como muitas vezes ocorre com famílias de origem pobre na Índia, somente as filhas mais velhas recebem algum tipo de educação formal. As opções de estudo para Monika parecem ter desaparecido.

Na casa há muitos móveis empilhados. Entre eles, um baú fechado e uma geladeira ainda na caixa – curiosamente, na casa não há geladeiras funcionando.

Os móveis e eletrodomésticos são parte do dote reunido pelo pai de Monika para o dia de seu casamento. Ganesh acredita que sua maior responsabilidade, como pai, é casar e dar uma vida estável para suas filhas.

A filha mais velha, Rajini, também se casaria em novembro. Seu noivo tinha um irmão, e a família de Monika acreditou que, caso ela se juntasse a ele, poderia haver dois casamentos de uma única vez – para economizar dinheiro.

Mas o que eles planejaram para Monika era ilegal no país. “Sabíamos que era proibido (casamento de uma menor de 18 anos). Nos sentimos mal”, diz Ganesh. Para Sita, no entanto, as circunstâncias da vida pobre não deixavam muitas opções. “O que poderíamos fazer?”, pergunta, encolhendo os ombros.

Sita também diz que o casamento foi acertado por causa da segurança de Monika. “Quando vamos trabalhar, ficamos preocupados em deixar nossa filha sozinha em casa, pois nosso bairro não é seguro”, diz.

Último recurso

Monilka está sentada junto aos pais enquanto eles contam sua história. Eles parecem não guardar rancor do que aconteceu.”Quando vi minha irmã com roupa de casamento, me dei conta de que eu não queria aquilo. Eu não podia me casar”, diz.

Naquele momento, Monika ligou para a “Childline”, um número de telefone nacional para ajudar crianças. Ela tinha lido sobre o serviço em livros e se recordou do número: 1098. Quando ela ligou, faltavam apenas algumas horas para seu casamento.

Ela estava com medo, mas era seu último recurso. Quando atenderam o telefone, em Nova Déli, segunda cidade mais importante da Índia, Monika começou a contar sua história. “Vocês podem por favor fazer alguma coisa para impedir meu casamento?”, perguntou.

O telefonista anotou seus dados e, segundo Monika, respondeu: “Não se preocupe, estamos a caminho”.

É neste momento que uma jovem chamada Preeti Yadav entra na história. Ela trabalha na organização Urmul Trust, que atende aos casos que chegam pela linha de ajuda a crianças. Preeti responde a chamadas em todo momento, de dia e à noite.

Às vezes ela precisa correr contra o relógio, andando com sua moto branca, para evitar o casamento de alguma menina menor de idade. “Nesse caso, tivemos o grande desafio de salvar Monika do casamento em apenas três horas”, conta Preeti.

A polícia local chegou à casa de Monika às 17h e advertiu aos convidados de que o casamento não poderia ocorrer por causa da idade da noiva. Mas a família fez pouco caso.

Às 20h, Monika voltou a ligar para Preeti. Seus pais havia mudado o local da cerimônia para a casa de sua avó – eles ainda queriam casá-la.

Duas horas depois, Preeti e a polícia apareceram no lugar. Monika já estava vestida de noiva. Sem dizer uma única palavra, a menina sorriu ao vê-los.

Os convidados começaram a cochichar. Ninguém imaginava quem havia ligado para a polícia.

“Levamos os pais e avós de Monika para um quarto e explicamos que somente a menina sofre com o casamento precoce. Também dissemos que eles poderiam ser punidos pelo delito”, disse Preeti.

A polícia obteve uma declaração escrita da família se comprometendo a não casar a garota antes de seus 18 anos. Eles foram avisados de que podem ser presos caso descumpram a regra.

Preeti se vê como uma espécie de irmã mais velha de meninas como Monika e diz ter satisfação em fazer seu trabalho. “Mantenho contato com as garotas para sempre. Me sinto muito orgulhosa de poder ajudá-las a salvar suas vidas e a proteger seus futuros”, diz.

Uma lenta mudança

Preeti diz que, só neste ano, viu entre 20 e 25 casos de matrimônio infantil. Essa prática foi proibida em 2006, mas a Índia segue sendo o país com maior número de registros, segundo a Unicef.

“A situação está mudando e a idade média de casamento está aumentando. Antes, estava entre 10 e 11 anos, mas agora está entre 14 e 15”, explica Arvind Ojha, líder da organização Urmul Trust.

Enquanto falava com a reportagem da BBC, cem crianças assistiam a uma peça de bonecos sobre uma menina que não queria se casar. “Veja como eles estão envolvidos. A transformação vem com essa participação”, diz, apontando para as crianças.

Segundo a Unicef, 12 milhões de meninas são obrigadas a se casar antes de completar 18 anos.

Na última década houve avanços importantes, especialmente no sudeste asiático, tendência que também começou a ser vista na África subsaariana.

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