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A Brisanet e o Roberto Nogueira, seu idealizador, se tornaram matéria de capa na edição de maio da Revista GOL. Na reportagem, é relatada a trajetória do fundador da empresa até chegar onde a Brisanet está.

Atualmente, mais de 200 mil assinantes do interior nordestino estão se conectando com o mundo através do sinal transmitido pela Brisanet. E você pode ver como esse projeto foi possível na matéria publicada na Revista GOL, que está logo abaixo.

Assim como todos os moleques de Pereiro, pequena cidade do sertão cearense a cerca de 300 quilômetros de Fortaleza, José Roberto Nogueira, 52 anos, passou a infância na lida: primeiro, encarregado de trazer água para casa – levava o jumento até a cacimba e voltava com o que conseguisse – e, mais tarde, na roça. Mas, diferente deles, sua cabeça só pensava em uma coisa: eletrônica. “Sempre tive vontade de saber como tudo funcionava para me virar sozinho”, explica o empresário à frente da Brisanet, empresa fundada em 1997 e que hoje leva internet de fibra óptica para aproximadamente 200 mil assinantes entre Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Detalhe: a conexão é de alta qualidade, com velocidade três vezes maior do que a média brasileira e próxima a dos Estados Unidos e da Coreia do Sul.

O rádio de pilha da família foi uma das primeiras vítimas de sua curiosidade: virava o aparelho do avesso para “entender como a voz saía de lá de dentro”. E uma bicicleta usada, que comprou com anos de economia e equipou com hélices e motor, substituiu a motocicleta que estava muito além de suas possibilidades. Era assim que encurtava a uma hora de caminhada para ir e voltar da escola. “Até hoje, essa bicicleta foi a compra que mais me deixou feliz”, conta ele, que só aprendeu a ler e a escrever aos 10 anos.

Morava com a família em uma casa com chão de terra batida, paredes sem reboco, sem banheiro e luz elétrica, mas isso nunca minou a determinação do caçula de dona Francisca e de “seu” José Estevão, que tiveram quatro meninas e sete meninos – e perderam outros dois filhos. “Até hoje, quando Roberto coloca uma coisa na cabeça, ninguém tira. Ele sempre enxergou muito à frente e sabe exatamente o que está fazendo”, conta Francisco França Reis, o França, gerente de infraestrutura da Brisanet que está há duas décadas trabalhando com o empresário.

 

FOME E VONTADE DE COMER

A determinação bateu mais forte quando a televisão chegou na casa de Roberto. Ele tinha 17 anos e ficou ainda mais fascinado por este universo ao ver os episódios de Cosmos, série apresentada pelo astrônomo norte-americano Carl Sagan e exibida na Rede Globo, no início dos anos 80. Na época, já fazia um curso por correspondência de técnico em eletrônica do Instituto Universal Brasileiro. Estudava sozinho quatro horas por dia – e fez isso sistematicamente até os 21 anos. Seu sonho era montar uma oficina de manutenção de rádio e TV. Para treinar, consertava de graça o que caísse em suas mãos e, depois, passou a fazer instalações elétricas nas casas da vizinhança.

Outro programa de TV, Brasil, Terra da Gente, em que o jornalista e deputado federal Amaral Netto destacava o progresso do país nas mais variadas áreas, acendeu uma nova luz na cabeça de Roberto: o desejo de trabalhar na Embraer. Era 1987: ele raspou suas economias e comprou uma passagem para São José dos Campos, cidade paulista onde fica a sede da empresa.

“Na Embraer, tive sorte de trabalhar no protótipo do primeiro caça brasileiro, o A-1 (AMX)”, lembra ele, um dos homenageados da última edição do prêmio Trip Transformadores. Como o material não chegava (o projeto era fruto de uma parceria entre os governos brasileiro e italiano), ficou um ano no centro de treinamento, aprendendo tudo sobre aviões. Em paralelo, montou uma pequena oficina de manutenção e de vendas de PCs em São José dos Campos, a Wind Star.

Em uma de suas visitas a Pereiro, levou um computador para vender, mas não conseguiu, porque ninguém sabia usar. A falta de mercado foi o pontapé inicial da escola de informática que abriu em Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte. O empresário conversou com prefeitos de várias cidades da região e, argumentando que a iniciativa ajudaria a formar mão de obra local, garantiu transporte para os alunos. Um deles era França, que passou a morar em São José dos Campos para receber treinamento na Wind Star depois que Roberto decidiu seguir apenas como empresário.

Desde 1991, a oficina já abrigava uma fábrica de antenas parabólicas. Roberto vislumbrou outra oportunidade cinco anos depois, quando a internet chegou comercialmente no Brasil. Associou-se ao dono de um provedor em São José dos Campos e começou a bolar um jeito de fazer o sinal chegar em Pereiro – nascia, assim, a Brisanet. “Nunca passou pela minha cabeça não voltar para minha cidade”, diz o empreendedor. França se lembra dos primeiros testes com as antenas parabólicas que faziam o envio do sinal via rádio, já que a empresa ainda não usava fibra óptica. “A gente ficava dias no meio do mato, dormindo no caminhão, até que tudo estivesse funcionando. O Roberto ainda estava em São José dos Campos, mas fazia questão de falar comigo todos os dias”, relembra ele.

Até hoje, Roberto acompanha de perto o dia a dia da empresa, que conta com 2 mil funcionários. Tanto é que não foi fácil encontrar uma data em sua concorrida agenda para realizar esta reportagem na distante Pereiro – ele ainda estava prestes a embarcar a trabalho para a China pela quarta vez. Feito isso, o empresário escolheu o terno que usaria e deu palpites sobre as fotos. “Ele é prestativo e atencioso. Mas, por entender do assunto e ser muito metódico e organizado, é bom ter uma boa justificativa caso você não atenda a um de seus pedidos”, complementa França.

VENTO A FAVOR

Tanto empenho chama a atenção não só do mercado, mas também de organizações de fomento ao empreendedorismo. Caso da Endeavor, que incluiu a Brisanet em seu programa de aceleração em 2016. No ano seguinte, a instituição colocou Roberto em seu projeto de mentoria para empresários. “Ele enfrentou todo tipo de dificuldade e não só prosperou, mas contribuiu para desenvolver sua região”, diz Luiz Studart, gestor de negócios da Endeavor. Ainda em 2017, Roberto recebeu o prêmio Emerging da consultoria EY, que destaca empresas com grande capacidade de expansão.

Sua contribuição para o desenvolvimento do Nordeste não para na Brisanet. Em 2008, o empresário montou a Nossa Fruta Brasil, fábrica que nasceu para dar suporte a um modelo de negócios que é vender polpa de fruta natural, sem nenhum tipo de aditivo, e valorizar a agricultura regional – 90% da matéria-prima é adquirida de produtores locais.

“Roberto é cheio de projetos e eu coloco as coisas para andar. Ele diz que precisa ter alguém que corte suas ideias. Somos complementares e temos uma ótima sintonia profissional”, diz Hermanice Nogueira, sócia do negócio há seis anos. Como era de se esperar, a iniciativa prosperou: desde que abriu as portas, a empresa cresceu 1.000%, faturou mais de R$ 18 milhões no ano passado e vende seus produtos em supermercados e estabelecimentos comerciais de cinco estados nordestinos.

A Brisanet, hoje com 20 mil quilômetros de cabos de fibra óptica espalhados pelo Nordeste, segue em expansão – já conseguiu empréstimos, por exemplo, no Banco do Nordeste, que incentiva o desenvolvimento da região. “No mês passado, começamos a operar também em Santa Cruz do Capibaribe”, conta Roberto, referindo-se à primeira cidade pernambucana atendida pela companhia. Tales, seu único filho, cursa administração no Insper, em São Paulo, e deve ser seu sucessor. “Mas não vou colocar esse peso nos ombros dele. Se ele quiser, pode tocar outro negócio, já que não pretendo parar de trabalhar”, finaliza.

Fontes: Revista GOL, nº 194, maio, 2018.
Reportagem: Márcia Rocha.
Fotos: Tomás Arthuzzi.