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Sem TV em casa, Júlio César acompanha os placares do Ferroviário por ligação e conseguiu ajuda para ver decisão da Série D com torcedores e diretoria do clube, neste sábado (4)

inha história com o Ferroviário começou muito cedo. Quando eu tinha seis anos meu tio me levou na Barra do Ceará e me apaixonei pelas cores vermelho, preto e branco”.

Todo torcedor conhece a vontade de gritar quando seu time marca o gol ou quando comete um erro imperdoável, o desejo quase involuntário de chorar junto, comemorar e sente também aquela sensação de coração na boca em uma decisão difícil pela equipe. O time entra em campo com 11, mas carrega em cada lance da partida o coração de centenas, milhares. Você pode ser do tipo silencioso ou espalhafatoso, que coleciona camisa ou que só tem uma bandeira. Não importa seu tipo, o que une todos os torcedores é o amor pelo time e a vontade de estar presente.

Com Júlio César não é diferente. Aos 38 anos, Júlio é morador do distrito de Santa Rosa, em Marco, no interior do Ceará. Apaixonado pelo time do coração desde os seis, o mototaxista não mediu esforços para vencer os 220 km que o distanciava de Fortaleza, mais precisamente da Arena Castelão, onde a equipe coral jogaria.

Júlio desejava assistir à primeira partida do Ferrão pela final da Série D do Campeonato Brasileiro, contra o Treze-PB. Ele até chegou à Capital a tempo na segunda-feira (30), mas não tinha o ingresso para ver o duelo. Teve que assistir os gols de Janeudo, Cariús e Robson Simplício de pé em um barzinho em frente à rodoviária de Fortaleza. Não pense que viu o jogo com tristeza, muito pelo contrário, para ele é como se estivesse lá com os companheiros de torcida.

Início do amor coral

A história de Júlio começou com seu tio, aos seis anos de idade. Ele conta que ao chegar na Barra do Ceará, não deu tanta bola assim para o time. Depois de alguns dias, assistindo televisão, avistou outro coral, o São Paulo. Inocente, perguntou como podia o Ferroviário está jogando na TV, em horário nobre. O tio explicou que se tratava de outro time, e o então menino respondeu que a partir dali torceria para os dois.

Eu amo as cores vermelho, preto e branco. Tudo em mim tem a ver com o São Paulo e com o Ferroviário – garante.

Há quem acompanhe os jogos do time pela televisão, pelo rádio, ou pela internet. Júlio acompanha pelo celular. Por ligação, mais precisamente. O mototaxista vive uma situação difícil no interior, sustenta esposa e filha e pouco arrecada na semana. O pouco que consegue é para pagar as despesas de casa, não sobra para a TV. Mas ele revela um pequeno “luxo” pessoal: sempre coloca créditos no celular para ligar para mãe ou para os sobrinhos durante as partidas, assim acompanha os resultados. Nem sempre eles estão acordados, nesses dias o placar só vem no dia seguinte.

– Não tenho televisão em casa, então não sou super atualizado de todos os times. Com o Ferroviário, eu faço assim: tenho sempre créditos e fico ligando para minha mãe e ela fica me dando o resultado. Nas outras casas da vizinhança até tem televisão, mas não é todo mundo que vai atender, é meio chato até. Mas minha mãe e meus sobrinhos me mantém informado. Às vezes, só sei no outro dia, mas pelo menos amanheço com notícias boas – afirma.

O torcedor avalia a atual situação do clube, parabeniza o trabalho da diretoria e não esconde a satisfação de ver o time disputando essa final. Acima de tudo, está feliz pelo apoio que recebeu da torcida coral, que ajudou a transformar o sonho de Júlio em realidade, com um gesto gigante de companheirismo e empatia.

– Estou muito realizado pelo momento, por ter essa oportunidade. Só tenho a agradescer a todas as pessoas que me ajudaram, aos torcedores. Fico muito feliz porque sei que a torcida do Ferrão é uma torcida que nunca desistiu. Somos um a família. A história que contam do Ferrão é que a torcida é pequena, mas posso dizer que ela é verdadeira – desabafa.

Com redação do G1 em Fortaleza