Deputada que usou decote em posse atribuiu a onda de ataques ao machismo - image deputada-machismo-696x392 on https://antv.news

A deputada Ana Paula da Silva (PDT) chegou a pensar que seu traje de posse, na Assembleia de Santa Catarina, ia provocar reações por ser vermelho -uma cor estigmatizada nas últimas eleições. Mas foi o decote do macacão, comprado especialmente para a ocasião, que causou furor na internet, e fez com que centenas de pessoas a chamassem de “daputada”, “trabalhadora do cabaré” e questionassem “a quantos ela tinha dado” para se eleger.

Nas primeiras horas após os comentários, “não tinha um músculo ou osso que não doesse”, contou Paulinha, como é conhecida, à reportagem.

A parlamentar, de 43 anos, que foi prefeita de Bombinhas (SC) por dois mandatos e se elegeu com 51 mil votos, defendeu a escolha do traje e atribuiu a onda de ataques ao machismo.

Ela pretende processar autores de comentários ofensivos. Em nota, a Assembleia informou que o decote não caracterizou quebra de decoro e repudiou os ataques.

LEIA A ENTREVISTA:

PERGUNTA – Tudo bem, deputada? [risos]

ANA PAULA DA SILVA – Tudo bem; estou melhor agora. Agora o pior já passou. Mas eu vou te dizer: nenhum ser humano consegue manter a sanidade diante de um processo de agressão em nível nacional. Apanhar desse jeito não é fácil. Ainda mais quando você não prevê, não imagina.

PERGUNTA – A sra. não imaginava, então, que sua roupa ia causar tamanha repercussão?

ANA PAULA DA SILVA – Nunca, jamais. Por duas razões: primeiro, porque fui prefeita por seis anos, concluí meu trabalho com grande aprovação, e jamais fui julgada ou passei por uma situação constrangedora durante o exercício do meu mandato. E segundo, porque, alguns anos atrás, quando eu comecei um processo de empoderamento íntimo, porque é uma coisa sua consigo mesma, eu decidi que jamais ia me violentar por causa da vontade de outras pessoas, ou me sujeitar a conveniências. Claro, dentro do que é aceitável.

PERGUNTA – Como foi a escolha da roupa?

ANA PAULA DA SILVA – Eu eventualmente uso um decote, um vestido mais justo, uma transparência. E também, eventualmente, saio de casa de jeans e moletom, porque nós somos assim. Nós, mulheres, nos vestimos conforme nosso estado de espírito. Tem dias que a gente quer sair de casa deslumbrante, e outros que a gente quer sair de pijama, se pudesse. Isso tem a ver com o resultado do meu trabalho, porque, quando a gente está com nossa autoestima bem-resolvida, feliz, quando a gente se reconhece nos nossos desejos, a gente oferece mais alegria, faz um trabalho mais consistente. Esse processo [das agressões virtuais] me trouxe algumas tristezas, mas também me deu muitas alegrias. Mulheres empoderadas, como juízas, desembargadoras, que viveram um processo muito semelhante, escreveram para mim.

PERGUNTA – Muita gente te procurou, então?

ANA PAULA DA SILVA – Muitas, muitas. Me mandaram mensagem no privado, textos inacreditáveis, sobre o quanto essa realidade é comum a tantas mulheres. De a mulher se autorreprimir, pela necessidade de se sentir aceita, por causa do julgamento da sociedade. Quantas amigas eu tenho que o namorado ou marido chega e diz: “Ah, não, amor, tu não vai com essa roupa hoje, né? Essa blusa está muito transparente”. Muitas e muitas de nós passamos por isso. Você pode ter se achado linda, mas acaba trocando para evitar uma briga.

PERGUNTA – Algumas pessoas disseram que a Assembleia não era o lugar para usar esse tipo de roupa. Concorda?

ANA PAULA DA SILVA – Eu não concordo. Mas respeito e aceito com muita humildade. As pessoas não precisam pensar igual. Uma crítica respeitosa é bem-vinda. As pessoas podem achar que minha roupa estava imprópria, tudo bem. O que é intolerável são as agressões, a violência, o julgamento. Isso é que não dá.

Eu não achei inapropriado, porque a roupa estava dentro do protocolo. Ela não é costumeiramente usada nessas ocasiões, mas estava absolutamente dentro do ‘dress code’ da Casa. Não houve nenhuma quebra de decoro. Mas as pessoas podem achar impróprio porque a nossa participação na política é tão minúscula, são tão poucas mulheres, que a gente vai se adaptando a uma série de regras que, se você for pensar, não são do mundo das mulheres. São do mundo dos homens.

PERGUNTA – É um padrão imposto?

ANA PAULA DA SILVA – Sem dúvida nenhuma. Se você percorrer seus sentimentos, talvez não sejam esses os seus desejos. É uma convenção que está posta. Mas não precisa se sujeitar a ela, se não é da nossa vontade. Desde que a gente não exceda, naturalmente, o limite do respeito. Essa questão do que é adequado ou não é algo muito subjetivo. À luz da razão, [a roupa] estava dentro do protocolo da casa. Então, é uma questão de gosto.

De novo: a participação das mulheres é tão minúscula na política que, quando a gente se coloca de uma forma mais feminina, no nosso estilo, isso destoa do ambiente. Se a gente tivesse 15 mulheres e 25 homens [como deputados], ou 20 a 20, com certeza absoluta haveria outros decotes naquela Assembleia. Porque eu não sou a única mulher que gosta de decote.

Da redação com a Folha