Depoimentos de jornalistas da Record à Polícia Civil indicam que o repórter Gérson de Souza, acusado na semana passada de assediar sexualmente pelo menos 12 mulheres, incomodava boa parte das profissionais que trabalhavam à sua volta no Domingo Espetacular. Sem um perfil muito definido, suas vítimas iam de estagiárias a mulher grávida.

Segundo os testemunhos, Souza abordava mulheres de 20 e poucos anos e também as com 40, morenas e loiras, quase todas jornalistas, chefes ou subordinadas. Só poupava as mais velhas e as gordinhas. Para a gestante, na faixa dos 30 anos, ele teria dito que seu fetiche era transar com uma grávida. A mulher optou por não depor contra ele, mas seu caso foi relatado à polícia por colegas de trabalho.

A maioria dos casos foi de assédio verbal. Souza, de acordo com as denunciantes, falava ou indicava com gestos o quanto elas eram “gostosas”. Uma das vítimas disse à polícia ter sido chamada de “putinha”.

Contatos físicos também teriam acontecido. Quando abraçava as mulheres, o repórter pressionava contra os seios. Algumas foram tocadas nos seios e na cintura, segundo relatos. Também era comum ele tentar roubar um selinho quando cumprimentava uma colega com beijo no rosto. O caso mais grave foi o de uma produtora que o acusa de tê-la supreendido com um beijo na boca.

“Ele chegou por trás e me beijou na boca. Ficou mostrando a língua e saiu dizendo que roubado era mais gostoso. Foi nojento”, disse ela ao Notícias da TV.

Record afasta repórter

Segundo as mulheres, Souza teve um comportamento abusivo durante muitos anos, mas elas só denunciaram agora porque uma das vítimas, a que foi beijada na boca, decidiu levar o caso ao departamento de Recursos Humanos. A Record não só orientou as profissionais a procurarem a polícia como forneceu transporte e assistência jurídica.

As duas primeiras denúncias à polícia foram feitas na quinta (23), como antecipou o Notícias da TV. Foi aberto um inquérito policial numa delegacia da zona oeste de São Paulo. Na sexta (24), mais dez funcionárias da Record foram à polícia contra Souza.

O número de supostas vítimas ainda é incerto. Doze mulheres procuraram o RH da Record e foram à polícia, mas nem todas dizem ter sido abordadas de forma inconveniente. Algumas são testemunhas de colegas que não querem se expor. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, foram registrados três boletins de ocorrência entre quinta e sexta. O repórter foi afastado de suas funções até 10 de junho, quando entrará oficialmente em férias. A Record só tomará uma decisão mais drástica ou revogará o afastamento quando se encerrarem as investigações policiais.

Réporter aponta revanchismo

Gérson de Souza nega veementemente ter cometido assédio. Diz que está sendo vítima de revanchismo de uma produtora (repórter que atua nos bastidores da TV), a que o acusa de tê-la beijado na boca.

“Eu reclamei com a chefia da qualidade das pautas dela, era roteiro que não tinha o nome do entrevistado, que não tinha informações”, disse ele à reportagem. “Estou vendo isso como revanchismo. Tenho certeza de que ela está reagindo a uma observação que fiz sobre a qualidade do serviço dela”, sustenta.

O jornalista diz ser “de uma época em que se brincava [com mulheres]”, mas nega que tenha assediado as colegas. “Isso é um grande mal-entendido. Não assediei ninguém.”